segunda-feira, 12 de julho de 2010

Filme: O Segredo dos teus olhos, por Alexandre Wunderlich


El Secreto de Sus Ojos: quatro leituras sobre a paixão

Alexandre Wunderlich - Professor de Direito Penal na PUCRS

Abaixo segue extraordinária análise do meu irmão Xande Wunderlich sobre esta espetacular película argentina e ganahadora do oscar. Assisti-la criticamente é prazeroso e obrigatório.

Luiz Fernando



O Segredo dos Seus Olhos, drama romântico-policial dirigido por Juan José Campanella (Argentina-Espanha/2009), adaptado do romance La pregunta de sus ojos, de Eduardo Sachari.

O filme

Benjamín Espósito (Ricardo Darín) é uma espécie de secretário de diligências do Ministério Público, com atuação no Juízo Penal, que acaba de se aposentar. Longe da cena judiciária, Benjamín decide escrever um livro sobre um caso de homicídio ocorrido há mais de vinte anos. De início, procura a sua antiga chefe, a Doctora Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), que, nos dias atuais, representaria a Promotoria de Justiça — o filme transcorre em 1974, quando o MP não tinha a configuração atual.

Durante anos, “Benja” atuou ao lado da polícia judiciária nas investigações de crimes. O prestativo agente contava com o apoio de Pablo Sandoval (Guillermo Francella), fiel amigo e colega de cartório judicial. Sandoval é o retrato do típico burocrata (aparentemente) feliz. Funcionário público sem compromisso, simpático e sorridente, encontra na garrafa a razão de seu viver. Para fugir do trabalho, atende ao telefone da repartição, dizendo: ” banco de espermas, setor de doações”.

Procurada, e a fim de auxiliar na escrita do livro, Irene entrega para Benjamín uma antiga máquina de datilografar. Nesse momento, uma rápida frase passa desapercebida para o público leigo. Irene, ao retirar a máquina cheia de poeira de um armário da Corte Penal, declara:” – vai ajudar a escrever, mas deve ser do tempo do caso ‘Petiso Orejudo’”. Refere-se ao famoso caso que data do início do século passado, que é citado por inúmeros criminólogos, do sujeito desajustado desde a infância. A bela Irene fez uma blague com Benjamín, porém o público não tem a obrigação de entender tudo isso.

É nesse contexto que Benjamín inicia a redação de sua novela. Recorda-se, então, do crime bárbaro em que trabalhou, isto é, um violento estupro, seguido de morte. A jovem e bonita vítima era casada com Ricardo Morales (Pablo Rago), a quem Benjamín, diante do visível sofrimento experimentado pelo viúvo, promete prisão perpétua para o culpado.

Duas décadas depois do homicídio, Benjamín Espósito reconstrói o iter criminis: narra como procedeu a apuração dos fatos, o processo e o cumprimento da pena do acusado até a sua inexplicável liberação.

O recorte sobre a investigação prossegue e o roteiro leva o assistente ao passado e ao presente com leveza e rapidez. Ao tempo que reconstrói a história do crime e do processo, tempera o romance com fatos do dia-a-dia contemporâneo.

Fora o excelente drama romântico-policial que fascina a qualquer um — sobretudo quem atua nas Ciências Criminais e quem conhece um pouco da Justiça Penal —, o que me motiva a escrever é sobre a paixão que movimenta o filme ou, ainda, sobre as paixões possíveis que dão cor aos caminhos das pessoas.

A narrativa é, por si só, muito apaixonante e remete ao mundo das paixões de diversas formas e perspectivas — este é o ponto que me interessa.



Paixão 1ª

A localização do autor do delito resolve-se a partir do encontro das cartas do homicida foragido para a sua mãe, em que são citados inúmeros nomes que a princípio nada dizem. Depois, vê-se que são nomes de jogadores de futebol que marcaram a história do “clube do coração” do assassino.

Surge, aqui, a paixão como fanatismo, a paixão clubística. O filme é marcado por uma cena impactante dentro de um estádio, em um jogo do Racing Club. A cena transmite com exatidão a realidade de uma torcida de futebol — é impressionante. O significado que se extrai, nas palavras de Sandoval, é que aquele é um homem, capaz de mudar tudo, mas não muda a sua paixão pelo clube de futebol – muda de rosto, muda de mulher, muda de cidade, muda de trabalho, mas não muda de time; é paixão!



Paixão 2ª

Mas não é só isso. Sandoval, mesmo diante da mira de um revólver, fiel e leal ao amigo Benjamín — é verdade que não tinha muito a perder na vida —, quando indagado qual é o seu nome e se era de fato Benjamín, silencia, vindo a falecer no lugar de seu amigo.

O que se tem, agora, é paixão e desapego. Paixão, pelo bom amigo, que passa o filme sempre pronto para ajudá-lo; desapego, por sua vida desregrada e marcada pelo álcool. Mais do que nunca, reside aqui a paixão de um amigo pelo outro, capaz de levar à morte.



Paixão 3ª

Outra paixão é a do viúvo por sua esposa assassinada. Passam-se os anos e o homem segue na luta por Justiça — na verdade, sedento por Justiça. Passa o tempo e o assassino não cumpre a pena. Isso se deve a inúmeras razões, especialmente aquelas que sempre acabam por definir o Estado, ainda no tempo das ditaduras, como inoperante, ineficaz e, sobretudo, injusto.

A paixão do viúvo leva à paixão por Justiça. Diante da injustiça, da ausência do Estado, o justo é fazer o assassino cumprir a pena – seja de qualquer maneira. O viúvo torna-se carcereiro e consegue, então, manter o assassino preso em uma cela, especialmente preparada, na fazenda onde reside.

Enfim, o condenado cumpre a sua pena — aqui, o silêncio é a tortura. A leitura é a seguinte: onde não autuou o Estado, atuou o homem. Vale frisar, contudo, que o viúvo é um homem apaixonado, não um homem sem paixão. É um homem capaz de romper os limites e buscar a sua forma particular de fazer Justiça. Há, aqui, a paixão por vingança e por Justiça que, mesmo passados os anos, ainda impera no seu coração.



Paixão 4ª

Entretanto, a paixão essencial que move a narrativa é outra: diz respeito a Benjamín e a Irene. Ambos trabalharam juntos por mais de 20 anos. Entre olhares e gestos reveladores que não conseguem ocultar os pensamentos íntimos, eles passaram a vida em distância: perto-longe; juntos-separados. Ele acompanha o casamento dela com um sujeito que tem mais de cinco sobrenomes. Há uma passagem no filme que, diante dela, Benjamín é humilhado por um policial inescrupuloso – “você não é para ela”!

Eram contextos diferentes. Durante muitos anos, ele soube o seu lugar. Ficou assistindo à vida passar. Sozinho. Ela casou e teve filhos. E depois de vinte e cinco anos, aquela paixão não se apagou. Estava acesa. Não sucumbiu. Não era algo que o tempo pudesse abafar. Bastava um olhar... Uma palavra... O filme apresenta esta paixão impossível que, ao final, acaba por tornar-se uma realidade.

Então, o que o filme me trouxe como espectador? Que as grandes ações exigem paixão. Que não existe uma racionalidade pura. Que não se pode mudar a ordem natural das coisas sem paixão. Que talvez as grandes mudanças de uma vida ocorrem em razão da paixão. Afinal, boas e más paixões levam às boas e às más mudanças.

Uma paixão pode ser aguda e violenta, pode ser duradoura e profunda. Paixões em suas inúmeras formas, cores e cheiros. Mas, afinal, o que motiva o ser humano para além da paixão? O que faz o homem caminhar? Nada além da paixão. A paixão pelo clube. A paixão que leva ao crime e que leva à morte. A paixão patológica. A paixão por justiça, que é paixão de se buscar. A paixão por amor, que é paixão de felicidade ou de sofrimento. Não se pode, de nenhuma forma, viver sem paixão. Já dizia o poetinha "Ser feliz é viver morto de paixão."

Ação penal é anulada por falta de descrição de crimes

"A falta de especificação dos fatos criminosos, com todas as circunstâncias, tal como exigido pela Lei Processual Penal, impede o exercício mínimo da ampla defesa." Ao reafirmar esse entendimento, a 5ª Turma do STJ anulou ação penal movida contra funcionária de uma penitenciária que entrou em presídio com carregador de celular para ser entregue a um detento.

Lotada no setor de enfermagem, a servidora foi condenada por corrupção passiva a cinco anos e quatro meses de reclusão, em regime fechado, e ainda perdeu o cargo público. Seu pedido de trancamento da ação penal foi rejeitado pela 15ª Câmara do 7º Grupo da Seção Criminal do TJ de São Paulo.

No habeas corpus ajuizado no STJ, a defesa alegou que a acusação é inepta, pois não descreve qual seria a vantagem indevida prometida ou recebida pela acusada, limitando-se a afirmar que a denunciada contrariou o dever funcional "ao receber ou aceitar promessa de vantagem pecuniária, em troca do transporte do carregador de telefone celular para o interior da penitenciária".

Segundo o relator, ministro Jorge Mussi, nos termos da denúncia percebe-se a inexistência de uma descrição mínima da conduta atribuída à paciente, uma vez que o Ministério Público não especifico ou descreveu como e qual vantagem ou promessa de vantagem foi por ela solicitada ou recebida.

Para o ministro, ao não determinar como e de que modo a acusada recebeu ou aceitou promessa de vantagem pecuniária a acusação não se enquadra no tipo de corrupção passiva. "A falta de especificação dos crimes impede o exercício da ampla defesa, uma vez que o acusado defende-se dos fatos expostos na acusação, e tanto o recebimento da inicial quanto à prolação de sentença são balizados pelo que foi contido na denúncia", enfatizou o relator em seu voto.

Dessa forma, a Turma, por unanimidade, determinou a anulação da Ação Penal desde o recebimento da denúncia, sem prejuízo do oferecimento de outra de acordo com os requisitos legais. (HC nº 154.307 - com informações do STJ).

terça-feira, 6 de julho de 2010

Homenagem ao Uruguai - parte 01


Amigos,

desde que esta Copa do Mundo começou nada escrevi sobre ela no blog, mas passada a euforia brasileira e a respectiva decepção pela eliminação, resolvi deixar meus registros.

E sinceramente me dei conta que desde o início estou torcendo tanto pela seleção uruguaia quanto pela brasileira. Talvez até mais. E comecei a pensar por que.

Nós gaúchos, temos de fato uma relação verdadeira de irmandade com os uruguaios. Não é de graça que a todos os verões, nossos planos passam por caminhadas a beira-mar na inigualável península de Punta del Leste. Isso para não falar no por-de-sol no Rio da Prata, após as parrilladas e as imbatíveis cervejas charruas. Ainda bem que o Zaffari importa a Zillertal, Patrícia e Norteña. Só falta chegar a Passo Fundo também a Pilsen.   

E o que falar de nossa relação com Rivera? Neste verão passei mais de um mês em Livramento/Rivera e entendi o jeito de ser do uruguaio. Caminhar ao final de uma tarde quente de verão e encontrar uma piscina pública em uma praça foi algo emblemático. Ver a noite dezenas de crianças brincando nos parques sem grades, com as famílias mateando em frente às casas também. E que ninguém diga que vamos até a fronteira da paz apenas para as compras em free shops, do contrário iríamos muito mais ao Paraguai. Mas não, vamos ao Uruguai por que nos sentimos em casa, com os hábitos semelhantes ao nosso, o apego pela tradição e o pago, e isso nos torna todos GAUCHOS.

O fato é que a celeste capitaneada por Fórlan me emociona, e isso escrevo momentos antes da celeste jogar contra a Holanda, algo que não vi nem senti da seleção milionária de Dunga. Alguém aposta que algum jogador brasileiro colocaria a mão naquela bola? A verdade é que os uruguaios não falam mal de seu país, mesmo sabendo das enormes dificuldades que enfrentam, com problemas gravíssimos problemas políticos e sociais.
Como diz Galeano, talvez esse momento tenha a ver com a chegada da esquerda ao poder, com a posse de Tabaré Vasquez, após 30 anos. Nauro Júnior, fotógrafo de ZH, testemunhou este momento: "O povo uruguaio recuperava a sua auto-estima com a conquista de Tabaré. Poucas vezes tive a certeza de que eu estava vivenciando a história, e sendo testemunha ocular dela. Vi jovens escalando a estátua de Artigas na praça Independência, no coração de Montevidéu. Vi senhores de cabeça branca, derramando lágrimas, com a esperança de ter seus filhos de volta à pátria. Vi um povo que ama sua terra, vivento um dos melhores momentos de suas vidas".

O povo uruguaio AMA a sua seleção acima de tudo!!!! AMA a sua tradição!!! AMA seus valores!!!!

Desejo muito que esta seleção passe pela Holanda hoje, e depois no domingo pelas poderosas Alemanha ou Espanha. E isto pelos meus amigos uruguaios que moram em Rivera e Montevideo, Juan, Efraín, Fernando, Karen e Fernanda.

Gostaria muito de estar em Rivera nesta semana para compartilhar um pouco desse espírito!!!!

Avante Celeste!!!

Homenagem ao URUGUAI - parte 02



Amigos,

segue entrevista do maior escritor latino-americano de língua espanhola, como parte da homenagem ao país vizinho e irmão de todos nós gaúchos!!!!



EDUARDO GALEANO


“O Uruguai tem um dever de gratidão com o futebol”

A tarde começava a avisar que o frio não tardaria quando ele abriu a porta do Café Brasilero, fundado em 1877 na nostálgica Ciudad Vieja, em Montevidéu. O local foi um pedido seu. É um pouco a extensão de casa, ainda que ultimamente tenha preferido chá com leite enquanto o velho amigo engraxate (com o qual tem conta: vida de escritor não é de muitos dinheiros) lustra seus sapatos. Era preciso um tradutor à altura deste Uruguai que flana com as façanhas da Celeste que hoje encara a Holanda por vaga na final da Copa do Mundo, 60 anos depois do Maracanazo.



– Olá, você que é o repórter da Zero Hora? Quer um café?



Assim, com a mesma elegância esculpida em 40 livros traduzidos para diversos idiomas, começou a conversa com o jornalista, escritor e ótimo papo Eduardo Hugues Galeano, 69 anos de pura lucidez, talento e, claro, paixão pelo futebol.



Galeano ama o futebol como parte da sua vida, como todos os 3,5 milhões de uruguaios. Histórias como as contadas com entusiasmo incomum nesta entrevista de 50 minutos estão em livro editado pela L&PM, que publica suas obras no Brasil: Futebol ao Sol e à Sombra. Ali, Galeano oferece uma prova da sua obsessão. Uma placa pendurada na porta de casa em períodos de Copa advertiria: “Cerrado por fútbol”. Julguei que fosse lenda. Duvidei.



– Vai lá em casa para ver, então! – respondeu-me Galeano.



Desafiado, fui até a casa no bairro Malvín. E lá estava a placa. Na soleira da porta, bandeiras do Uruguai e do Nacional, time do coração.



Confira, nesta entrevista, o que significa o futebol para os uruguaios, hoje orgulhosos representantes da América do Sul na Copa da África.



Zero Hora – Como explicar esta celebração tão grandiosa dos uruguaios?



Eduardo Galeano – Parece um pouco inexplicável para um país como o Brasil, mais treinado do que nós nesta difícil arte que é ganhar uma Copa do Mundo. Nós temos a de 1930 e o Maracanazo, em 1950. Vocês têm algumas mais (risos). Mas para nós é uma façanha ficar entre os quatro melhores. Chegamos às semifinais em 1954 e 1970. Depois disso, nunca mais.



ZH – O importante nem é tanto ganhar ou perder, a esta altura?



Gaelano – Isso. Claro que é melhor ganhar do que perder. É melhor ser um jovem são do que um velho doente. Sou ruim de datas, mas houve um Mundial Sub-20 (em 1997) em que as pessoas também saíram às ruas e fomos vice. Houve um período longo e triste no qual o futebol uruguaio misturou coragem e violência. A garra charrua foi reduzida a pancadas. Na final de 1950, o Brasil cometeu o dobro de faltas do Uruguai. Foi depois que começamos a nos sujar, entrando nesta história de que ser valente é ser bruto. Por isso a importância desta seleção: ela promove o nosso reencontro com o bom futebol, sem violência e com humildade de espírito.



ZH – Há uma conexão desta celebração com o bom momento político e econômico vivido pelo país?



Galeano – Pode ser. A vitória da Frente Ampla, há alguns anos, abriu perspectivas de mudanças. Mas a verdade é que o nosso país é futebolizado. Os nenês nascem gritando gol. Por isso nossas maternidades são tão barulhentas.



ZH – O que é o futebol para um uruguaio?



Galeano – É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguai foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.



ZH – Houve uma falsa ilusão de que nada podia ser melhor do que o Uruguai, seguida de depressão depois, a partir das tantas vitórias no começo do século passado?



Galeano – Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.



ZH – Mas no futebol mundial há muitos bons jogadores uruguaios.



Galeano – Sim, temos 250 jogadores fora daqui. Mas nenhum Messi, Kaká ou Cristiano Ronaldo. Que, aliás, não vi na Copa. Talvez por que ele tenha passado mais tempo se vendo na TV.



ZH – Nem depois do bi olímpico nos anos 1920, seguido da Copa de 1930, houve euforia?



Galeano – E mais 1950... Não. Festejamos como merecíamos. Obdulio Varela, nosso grande capitão, passou a noite inteira bebendo nos bares do Rio com os vencidos. Este é o Uruguai de verdade: de um homem capaz de passar a noite inteira abraçado aos vencidos. Este é o Uruguai que eu amo. Do contrário, mudaria de país.



ZH – Você o conheceu?



Galeano – Perguntei a ele uma vez: “Obdulio, me diga uma coisa. Prometo não publicar. Você se drogou alguma vez para jogar?” E ele, sério: “Sim: vinho”. Eram outros tempos. E outras pessoas.



ZH – Qual a sua lembrança de 1950?



Galeano – Escutei o jogo pelo rádio. Quando o Brasil abriu o placar, caí de joelhos. Eu era um menino muito católico. Pedi: “Deusinho, faça um milagre, por favor”. Fiz uma promessa. E o Uruguai ganhou. Aí saí para a rua com a população inteira. Até os paralíticos apareceram. Até os mortos ressuscitaram. Festejei a noite inteira e esqueci da promessa. O que me salvou a vida, senão eu seria um destes loucos a vagar pela rua rezando (risos).



ZH – Será que foi por isso que o Uruguai ficou tanto tempo sem ganhar depois?



Galeano – Pode ser... Deus deve ter pensado: “Puxa, neste povo não dá para confiar mesmo” (risos). Mas veja: quando ganhamos muito no começo do século, não foi tão milagre assim. O Uruguai teve jornada de trabalho de oito horas antes dos EUA, voto feminino antes da França, divórcio 60 anos antes da Espanha. Minha avó era divorciada. Tínhamos educação gratuita concedida por um Estado laico.



ZH – E admitiu negros no começo do século passado.



Galeano – Fomos a primeira seleção a admitir negros, em 1916. O primeiro poema da história da literatura foi feito pelo peruano Jose Parra para Andrade, ídolo nosso nos anos 1920 e na Copa de 1930, chamado pelos franceses de “A Maravilha Negra”. Fomos precursores em muitas coisas. Inclusive na criação de um futebol inexplicável.



ZH – É possível ser campeão do mundo de novo?



Galeano – Tenho um amigo técnico que me disse certa vez uma frase inesquecível: o futebol é um reino mágico, onde tudo pode acontecer. Então o Uruguai pode ganhar da Holanda e depois vencer da Espanha ou Alemanha. Seria maravilhoso, porque o bom que a vida tem é a capacidade de sofrer. Se fosse tudo previsível não teria graça.



brasilnaafrica.com.br



> Direto do Uruguai, Diogo Olivier e Nauro Júnior mostram o clima da torcida em vídeo. Assista em www.brasilnaafrica.com.br





DIOGO OLIVIER
Enviado Especial/Montevidéu